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8.15.2008

triste bahia


"Miro, desculpe, mas tenho que me preocupar um pouquinho comigo e minha cadeira. sei que as pedras não têm culpa, mas com elas minha vida é um inferno. Numa cidade onde grito sozinho por tudo, vou gritar por mim mesmo: fora pedrinhas. To me lixando pro porto, para a história, para a beleza. tudo aqui fede e tudo aqui é feio, com ou sem pedra portuguesa. desculpe o desabafo." Comentário postado por Edu O. há três dias atrás.




voltei. ao abrir meus e-mails hoje de manhã, tinha um de Shirley Pinheiro, me avisando que se podia votar uma vez por dia. tarde demais. a votação acabou.

9580 votos a favor. 5267 votos contra. fiquei abestalhado! 63% dos votantes concorda com este absurdo. inenarrável derrota!

Edu querido, mesmo entendendo a sua questão quanto as pedrinhas portuguesas, tenho de argumentar com você. como eu mesmo já citei na última postagem, eu mesmo fui vítima do desleixo com as calçadas de pedra portuguesa. torci o pé. uma banalidade comparada ao seu problema, eu sei. mas nem mesmo esta banalidade deveria ocorrer.
quando em 1980 eu perdi minha mãe, na mesma época minha tia Alba, sua irmã ficou paraplégica por incompetência médica. no que pude eu ajudei e cuidei dela como pude. e sei bem o que é empurrar uma cadeira de rodas nas calçadas de Salvador, sem contar que minha tia Alba, pesava pelo menos duas vezes e meia o seu peso. não vem ao caso.
o que vem ao caso é o direito dos cidadãos e dos pagantes de impostos de terem uma cidade bem cuidada. as calçadas de Copacabana são conhecidas no mundo inteiro. são cartão postal. e são bem conservadas, sem buracos. cadeiras de roda podem tranqüilamente passear pelo trottoir de Copacabana, ou de Ipanema. em São Paulo, muitas das calçadas são revestidas com as pedrinhas portuguesas. Em Lisboa e muitas outras cidades portuguesas, em Paris, até mesmo em Berlin elas existem, sem que ninguém tropece, sem que cadeiras de rodas não possam transitar.

triste ver a Bahia se definhando e perdendo sua memória. não são só os casarões do comércio, as belezas da penísula itapagipana, os sobrados no pé da ladeira da montanha, a própria ladeira da montanha, lapinha e tantos outros exemplos, sem nem começar com a grande orla de Salvador. um horror estético!

sim Edu, lhe dou toda razão no seu desabafo e nos seus gritos, porém não concordo com sua posição. mesmo nos meus anos de Bahia e raiva e de ódio pela ignorância de tantos, mesmo tendo optado pelo “exílio”, eu ainda amo muito muito a minha cidade. e dói pra caralho vê-la se acabando. perdendo sua memória, perdendo suas belezas. perdendo-se numa zona abissal desprovida de memória, de folclore inventado, se afogando na própria ignorancia e esquecendo o próprio passado.

mudanças fazem parte da vida. é um processo inevitável. absurdo é ver um povo se distanciando de sua própria história. praticamente destruindo sua própria história. é inaceitável.

infelizmente eu não tenho tendências para ser Don Quixote, nem vou querer ser o herói desta guerra perdida. continuarei a observar com imensa tristeza a Bahia se perdendo, se transformando numa pseudo-afro-disneylandia ao som dos tambores, do pagode, da cachaça e do crack asfixiada pelo plástico dos abadás, e do merchandising das cervejinhas.


triste Bahia, ó quão dessemelhante!

3 comentários:

Anônimo disse...

O blog preferido de Bete Capinan é o seu. Ela se encanta com esta visão sua de nossa cidade, nosso país. Você vê de tão longe e tão de dentro. Cada dia te admiro mais. Beijos

Bernardo Guimarães disse...

estamos contentes com seu retorno! Tava fazendo falta e voltou com todo gás! Benvindo de volta. Apareça pra tomar um cafezim...

Edu O. disse...

Miro, querido, reconheço e concordo com tudo que você diz. O que me angustia é a comoção pública que essa obra promoveu. Não acredito que essa questão seja mais importante do que outras tão mais urgentes e esquecidas e que passam a vistas grossas de todos. A mendicância, a falta de educação e respeito pelo outro, a violência crescente... enfim, tudo na Bahia está se perdendo e ninguém grita. Aliás, todo mundo grita IÁ IÁ, Iô, iô a Ivete é nossa e fica tudo bem.