
o fusca era verde. alguns anos mais tarde era azul. sempre um fusca. no fusca verde foram tantos os passeios. itapuã, placafor, estrada velha do aeroporto, são bartolomeu. desde então que eu observava as suas mãos. pousadas no volante, tão bonitas, sempre o cigarro nos dedos, as unhas sempre bem feitas. sempre elegante.o traço perfeito do lápis no lugar dos cabelos da sobrancêlha. o batom vermelho a deixar vestígios nas bagas de cigarro. o cheiro da primeira fumaça após ter acendido o cigarro a se misturar com o cheiro de seu perfume. acima de tudo o ar de indepência que lhe circundava. tantas vezes éramos só nós dois. paseios domenicais. depois vieram outras crianças, os filhos dos primos. íamos juntos levá-las ao circo, zoológico, sempre uma coisa inusitada, diferente. tudo era sinônimo de novidade. mais tarde a danada da adolescência me afastou de tudo e de todos. e ainda assim quando o chão debaixo dos meus pés parecia desaparecer, o seu imenso apoio, incondicional. não foi fácil. mas sequer me perguntava se era fácil ou não. talvez por achar a coisa mais natural do mundo que ela sempre fosse assim forte. esquecia de que ela não era um super-herói com super-poderes. mas um ser humano com todas as virtudes e com todas as fraquezas como todos os seres humanos. brigamos, fizemos pazes, mais tarde até ela me confessava coisas como se fóssemos velhíssimos amigos. sinto-me privilegiado por ter tido a sorte de poder ter me despedido dela como pude. por dois meses voltei à rua belo horizonte. depois de vinte anos. foi tão bom. mesmo quando só passavamos horas a fio na frente da televisão, cada qual com seu cigarro na mão. pitando em silêncio. rimos, choramos, brigamos, fizemos pazes. no final a despedida, o choro e finalmente pude lhe dizer que lhe amava.
enfim, ela partiu. em silêncio. repentinamente. foi como queria ir. sem dor e sem sofrimento. mesmo sabendo que era de carne e osso, vou lhe guardar na minha memória como eu lhe via quando nos tempos do fusca verde. uma super-heróina com super poderes, batom, perfume e as unhas mais bem feitas do universo.
saudade.
P.S.: a todos os amigos e parentes, obrigado pelo apoio e pelo consolo.

5 comentários:
Meu primo, não sei o que lhe dizer. Bjs
Meu prilho
"eu tenho tanto a lhe falar / mas com palavras não sei dizer / como é grande / o meu amor por você"
Você conseguiu falar linda e verdadeiramente sobre Yara. Grande mulher. Eu já reproduzi uma foto, vou aos poucos.
Beijos de sua primãe
Ela estava com as unhas perfeitas.
Primo:
quando soube, pensei logo em vc. Sempre me referia a ela como a prima do sorriso mais lindo! Não era? só me lembro de Yara assim: sorrindo. E sempre que digo o nome de minha neta, sempre, me lembro da xará.
passar por aqui às vezes é difícil!!!
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