
se minha mãe ainda fosse viva, não sei como é que ela faria para me convencer a acompanhá-la ás paradas. ela adorava uma parada. eu as abominava. sete de setembro, dois de julho. eu ia, mas só porque naqueles dias, opinião de menino não valia nada. campo grande, centenário, antônio balbino. parada de abertura das olimpíadas da primavera. enfim. sem nem comentar o fato dessa loucura de paradas ter acontecido bem no tempo da ditadura. mais loucura? se fosse pelo desejo de minha mãe, eu teria seguido ou a carreira militar ou eclesiástica. sempre fui bom aluno, mas fiz de tudo para perder no teste de inscrição da escola da polícia militar dos dendezeiros: mêdo! tinha mêdo de milico. acho até que ainda tenho. quanto a carreira mística, já nas aulas de catecismo e nas tarefas de coroinha na igreja do jardim brasil, ví que mesmo com toda a dramaturgia, cenário, figurino e pompa, aquele teatro não era o meu.
bizarro tudo isso. bizarro também ter chegado na bahia, depois do aeroporto ter sido rebatizado para luiz eduardo magalhães. ouvindo o co-piloto anunciando em língua estrangeira. welcome to the airport deputado louisch eduarrdo de magalaes. depois da morte de acm, eles deixaram pra lá, agora se chega é no aeroporto internacional de salvador. co-pilotos gringos já não mais precisam quebrar a língua. sou do tempo do dois de julho. inenarrável com seu túnel de bambús. este pelo menos ficou e continua inenarrável. no início dos anos 70 foi uma verdadeira embaixada familiar levar minha avó Italinha ao aeroporto, ela ia visitar as irmãs no rio de janeiro. naquela época a gente podia chegar até a beirinha do avião. tapava os ouvidos com as mãos. e o inesquecível impregnante cheiro de querosene de avião. do dois de julho também se voava para Belmonte, de teco-teco da atlanta. felicidade maior de menino era poder voar do lado do piloto. na frente.
dois de julho. era pra mim o dia do caboclo. e da cabocla. sempre tive fascinação pelos indíos. quando era menino ficava louco quando tinha nas mãos uma revista manchette em que tinha reportagem de índio. queria ser índio. de pé no chão. sem mêdo de bicho nem de chuva. sem mêdo da nudez, por eles jamais castigada. castigados sim eles mesmos, os nossos índios. 500 anos de colonização. de morte por gripe, varíola, syphilis e tantas outras doenças venéreas. ou simplesmente pelo fogo das armas. até hoje. hoje índio não é mais aquele da revista manchette dos tempos da ditadura, nem dos desenhos dos colonizadores. índio tem adidas. sandália havaiana e até quichute. índio tem outras necessidades de que aparecer em reportagem com irmãos villas-boas. além e aquém das transições e evoluções do índio nos anos 80, em ritmo de ‘abertura’ com gravador na mão. deputado federal (?). parece até que muita coisa mudou, evoluiu. e de fato nada mudou. mudaram os rótulos, mudaram as caras no planalto central. e até Lula mudou (de lado, de ideologia, de cara).
índio continua índio (?). procurando manter uma identidade, ou melhor procurando mesmo é desesperadamente achar a própria identidade. uma misteriosa tribo aparece no meio da floresta, com lanças nas mãos apontando para as câmeras de televisão. dizem até as más línguas que tudo isso seria um golpe dos lobbyistas. e índio tem lobby? deixa o índio em paz. deixa o índio ser índio e ter terra e paz pra ser índio. sem adidas nem sony, sem bala.
de que adianta carregar nas costas os andores com o caboclo e com a cabocla, pelas ruas da cidade da Bahia. imagem de índio em bonze no coração da cidade simbolizando a independência local?
se minha mãe fosse viva, certamente estaria chocada com as escolhas que eu fiz na vida. certamente nem tão chocada, como quando, se ela tivesse me dado a chance de optar naqueles dias, e tivesse simplesmente me perguntado: meu filho, o que é que você quer ser quando crescer?
índio.

2 comentários:
Êta meu primo, esse texto está demais!!!!!!! Olha, eu fui assistir "umas paradas" (militares) com vc qdo éramos crianças. Segurava sua mãozinha, tão lindo esse meu primo e ficávamos olhando os soldados marcharem no 19º BC, lembra?
A prima Meuris é rápida no gatilho! Sempre chega antes de mim.
Quantos doisdejulho e quanta presença, sempre, de nossas mães -as primas entre si mais queridas.
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