
“cometi todos os crimes,
vivi dentro de todos os crimes
(eu próprio fui, não um nem o outro no vício,
mas o próprio vício-pessoa praticado entre eles,
e dessas são as horas mais arco-do-triunfo da minha vida).”
trecho de “PASSAGEM DAS HORAS” Álvaro de Campos
Portugal, verão do ano 2000. fui ser padrinho de casamento de minha amiga Susana Fernandes Genebra. no norte, nas montanhas. depois da cerimônia e da festança, minha fome e minha sêde por Lisboa eram imensas. peguei o ônibus no dia seguinte e desci via Porto para a tão ansiosa cidade. queria seguir os passos do meu poeta preferido. lamber as ruas e os becos por onde passou. nesta noite fui assaltado. bairro alto. três me pegaram do nada. canivete na jugular. golpes de testa. até o sangue escorrer. transeuntes passando ignorando as nossas existências. trouxe uma cicatriz na sobrancelha esquerda de lembrança. souvenir lisboeta. no dia seguinte, vestido de branco e de banho tomado. Susana e Andreas vieram me encontrar, assim ela me fotografou tão pequeno diante do colosso de pedra de glórias e tempos passados erguidos por tão ingloriosa política. não foi a dor na carne, nem a ferida na sobrancelha esquerda. foi a dor do desprezo. da ignorância. da incapacidade de compreender e de ser compreendido. as línguas só mesmo se roçam. bem soube dizer o outro poeta. achei consolo nas horas nos sagüões de aeroportos, lendo Pessoa e de Campos. tentando voltar pra casa. sempre tentando isso. tentando entender um pouquinho mais. tentando mais e ainda amar amargamente a cidade que não me quis. três anos depois voltei. sabendo que também meus ídolos tomaram porrada e foram roubados em esquinas do bairro alto. voltei pra encarar de perto. desta vez já nem mais me senti assim tão pequeno e tão abandonado. voltei ao local do crime como quem volta pra casa. e fui pro Brasil.
"trago dentro do meu coração,
como num cofre que não se pode fechar de tão cheio,
todos os lugares onde estive,
todos os portos a que cheguei(…)
(…)e tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero."
PASSAGEM DAS HORAS
como num cofre que não se pode fechar de tão cheio,
todos os lugares onde estive,
todos os portos a que cheguei(…)
(…)e tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero."
PASSAGEM DAS HORAS

3 comentários:
e se tudo der certo em novembro passearemos da rua da Palma a Mouraria da rua do Capelão. Saltaremos do bonde no alto da Alfama e desceremos a pé pelos becos, degraus, rampas (se possso? invento se não posso). Bairro alto. Fados. Ou não.
Por enquanto escuto. muito.
Ah também quero ir! Será q tem lugar? Bjs, a outra Maria
eu sempro tento voltar para casa, mas nunca sei onde está. Talvez Sto Amaro, mas será?
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