


‘triste bahia, oh quão dessemelhante’
já disse o poeta, o grande poeta Grégorio de Matos nos idos do século XVII. e ainda ssim, a bahia parece ser a mesma, apenas se acumulando de gente, de favelas, invasões, miséria, crack e putaria.
‘o cura, a quem pede cura
de curar esta cidade,
cheia a tem de enfermidade
tão mortal, que não tem cura:
dizem, que a si só se cura
de uma natural sezão, que lhe dá na ocasião
de ver as moças no eirado,
com que o Cura é o curado,
e as moças seu cura são.’
Grégorio de Matos, trecho de ‘Ao Cura da Sé que Naquele Tempo,
Introduzido ali por Dinheiro,
e com Presunções de Namorado
Satiriza o Poeta Como Criatura no Prelado’
e eis que hoje passados mais de trezentos anos, estes versos são ainda de tamanha precisão e verdade. e não é só na poesia onde se vê que pouco se mudou na bahia em quase tão poucos quinhentos anos de existência.
estive três meses na bahia, cheguei depois do carnaval, quando a cidade já parecia ter se acalmado do verão curto e dos dias de excesso da folia. ano de eleição e nem a chuva nem as águas de março chegaram na hora marcada. poucos os buracos para tapar e fazer de conta que a cidade em obras é uma coisa absolutamente normal e que não estamos em ano de eleição.
o que me entristeceu na cidade certamente nãao foram os buracos, mas foi ver a cidade inundada de gente pobre miserável, dormindo no chão duro, sem dentes na boca e sem futuro. lavando-se nos canais de esgoto, quando muito. já não cheiram cola, os meninos que vagabundeiam pela barra e chame-chame, fumam crack. muitos, e nãao só eles! e a miséria toma conta da cidade como um vírus, como um ácido corrosivo, um vício. a cidade tão (en)cantada, do avião tem cor de barro queimado de milhares de blocos de tijolo das invasões que se proliferam por onde a vista der de se perder. sem teto tomam conta das ruinas, que não são poucas como cáries em uma boca meio baguela mas ainda tão sorridente. centro histórico, comércio, ladeira da montanha, grande boca banguela, sorrindo pro cartão postal da cidade. vergonha!
triste bahia ó quão dessemelhante.
toda vez que meu avião entra na baía de todos os santos e sobrevôa a penísula itapagipana, eu choro! choro de emoçãao, de alegria e da sorte que eu tive em ter nascido alí.
toda vez que meu avião sobrevôa a baía de todos os santos na hora de voltar pra berlin, eu choro, choro de tristeza… de ver minha bahia assim se deteriorando, fedendo a lixo, com tanta gente bonita sem um sentido de vida, fumando crack, se prostituindo, roubando, matando. muitos vivendo dos lixos dos gran finos…
não existe doença pior que a miséria. não existe pecado pior que a ignorância. detesto ver os turistas chegando aos bandos, fazendo do meu tão querido porto da barra um bazaar de sexo. meninos, meninas, homens, mulheres alí saudando os gringos bestas com massagens, colares, missangas, corpos, suores, odores e sexo. tudo por uma cervejinha, por um baseado, por um punhado de euros, por um pouco de anestesia que os livre da miséria ‘nossa’ de cada dia.
evangélicos tomam conta da paisagem da cidade e do país, nos ônibus tudo se vende: caneta, picolé, bala, chocolates se derretendo no calor arrasante da cidade, bíblias, taboada, até escova de dentes tentaram me vender no ônibus. no caminho que eu fazia diáriamente para ver meu pai, no caminho de areia, no trajeto ribeira/sabino silva. e também lá na penísula, a miséria corroi, os sobrados se acabam, a paisagem é bem outra do tempo em que era menino e alí vivia.
queria poder abraçar minha cidade e acariciá-la,tomar cuidados dela, mas quem sou, pra mudar a história que vem se repetindo inevitávelmente desde os tempos do poeta. quem sou eu pra quere curar a cidade. só me retsa ainda e mesmo assim amá-la. de longe.
só me resta sentir saudades.
fotos by Miro paternostro
HOLGA, bahia 2005

2 comentários:
Prilho,
Meu pranto solidário na tristeza porém acompanhado de um riso aberto por vê-lo a escrever tão bem, de maneira tão bonita.
Beijos de sua primãe
Eita que pelo jeito n�o me abafo sozinho querendo gritar a degrada�o desta cidade Salvador. N�o � minha, mas � como se fosse porque nela (infelizmente) habito.
� triste debru�ar na janela e diariamente ver o �cido corroendo a cidade, as mentes, os dentes...
Voc� n�o est� me devendo nada, querido. Nem sempre d� para fazermos aquilo que planejamos. Espero que minha carreira n�o seja t�o curta, porque daqui a pouco voc� volta e poder� assistir ao meu "bailado". Adorei ver-te em vers�o virtual. Adoro-te. Beijos
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