nomes e identidadesnome é uma coisa que se carrega consigo pelo resto da vida. se eu tivesse tido um filho, acho que ia chamá-lo de filho até o dia que que ele tivesse um mínimo de coerência e inteligência para escolher o próprio nome. se existe um deus, este bem sabe porque não botei filhos no mundo!

nasci de temporão. minha mãe com 43 anos e meu pai com 41. ambos queriam um filho. sexo: masculino. meu pai já tinha sido casado antes, teve um casal de filhos e o menino morreu com seis anos. minha mãe perdeu juventude e bons partidos, passando mais de vinte anos lutando contra a tuberculose. ambos queriam um filho!

minha mãe me falava ter tido vontade de me dar um nome curto, como Ivo. Cid. Ed.
meu pai queria que o menino tivesse o nome que tivesse, mas que fosse chamado pelo apelido de ‘Birinho’. nos idos dias de s. Felix, meu pai quando criança ganhou o apelido de ‘birro doido’, não tenho certeza mas acho ser um nome regional para pião. ele o ganhou devido à sua fama de estabanado. que bom que ele não ganhou o apelido de ‘caga voando’. de birro doido para biro foi um pulo, ou será que voi uma volta? e o filho dele o primeiro assim foi chamado: Birinho.
para evitar desavenças e aborrecimentos, minha mãe capitulou. colocou logo o nome todo: Walmiro de Almeida Pedreira Filho. perdi o nome curto, ganhei o nome dele inteiro, perdi o Paternostro no nome. além disso ainda herdei o nome de um finado. o que na minha lógica nada combina com as superstições de minha mãe. quando se é criança, nada importa, ou pelo menos sou de uma época em que as crianças assim eram adestradas. eu era birinho e pronto.
dona Adélia, era aparentada com a família de minha meia-irmã, a filha de meu pai, de quem eu
só conhecia o retrato na sala. cabelo louro, olhos claros. nada a ver comigo. minha mãe me levava muito para visitar dona Adélia e dona Esther. daí eu me lembrar delas contando casos de ‘Birinho’, ‘Birinho fez isso, Birinho fez aquilo’ e eu a dar nós na minha cabeça sem me lembrar de ter feito nenhuma daquelas coisas. certa vez o nó foi tão grande, pois dona Adélia contava das proezas que por nome eram minhas, mas não faziam parte do meu currículo, quando ela comentou dos cabelos lourinhos de ‘Birinho’. eu devia ter uns seis ou sete anos. nó cego na cabeça do menino.sei que não dei sossego até desvendar aquele mistério. foi então que minha mãe me contou da existência deste outro ‘Birinho’ e de sua morte aos seis anos por Leucêmia.
acho que a partir daí comecei a detestar este nome. mesmo com seis ou sete anos senti um enorme desprezo pelo nome, talvez eu exagere agora ou tente analizar o que senti, mas realmente me veio uma sensação de ter me sentido uma peça de reposição. ainda não tinha idade para me impôr e dizer que não queria ser chamado assim. e assim foi.
os anos se passaram e nós saimos da penísula itapagipana e fomos para a cidade alta. por parentescos, ganhei uma bolsa de estudos para estudar no Sophia Costa Pinto. ‘Walmiro’ entra em cena. eu detestava Walmiro, muito por ser o nome de meu pai. na adolescência os conflitos eram enormes entre nós. na melhor das hipóteses nós nos ignorávamos mutualmente, assim regia paz e harmonia no lar. No Sophia fiz amizade com uma família de sto. Amaro da Purificação. Milena, filha de Marlene de Quinzinho. ‘tia’ Marlene, como sempre a chamei, passou a me chamar de ‘Wal’. menos mal. minha mãe paralelamenete também tentou o tal do ‘Wal’ mas de novo sucumbiu ao maldito ‘Birinho’. Paula, uma grande amiga dos tempos do Sophia, veio com o apelido de ‘Biro’s’, era engraçado. sua mãe Sahada, até hoje me chama assim. assim como as meninas de Marlene até hoje me chamam de Wal.
1980. minha mãe morreu repentinamente. foi uma agosto tenebroso mesmo, como ela mesmo proclamava em suas superstições. ela morreu, Bibita ficou paralítica e eu com 16 anos muito mal vividos tive que administrar (no sentido literal da palavra mesmo!) tudo isso. mas esta é uma outra estória. foi um tempo de mudanças drásticas, no final de 1980, recebo a notícia, que o último ano de científico eu faria no novo colégio Sartre, que a turma do Sophia seria dividida em duas e eu iria para o Sartre. fui e a partir daí sempre pedia aos colegas, principalmente aos novos, chamem-me de Miro. e assim foi.
quando eu entrei na escola de teatro ainda usava Miro Pedreira como nome artístico, logo um ano depois, resolvi mudar para Miro Paternostro. e que assim fosse!
na Alemanha, sempre caras e bocas quando alguém pega meu passaporte para ler o nome, Walmiro Blá Blá Blá, é grande demais e um verdadeiro quebra-lingua. pra ocasiões em que eu não preciso mostrar o passaporte, sou sempre Miro Paternostro, como latin é lingua morta mas ainda estudada nas escolas daqui até hoje, Paternostro fica muito mais fácil de dizer.
em 1990 quando eu consegui de fato minha cidadania italiana, eu fui a Trecchina, agilizar meus papéis e muito mais pela curiosidade de conhecer a cidade natal de meu avô. os italianos me receberam beníssimo. mas e o nome??? grande, longo, comprido e extenso. resultado no tal dia em que estava marcado para eu pegar minha nova certidão de nascimento estava lá o nome:
Pedreira de Almeida, Walmiro Filho.
eu sempre acho toda e qualquer novidade o máximo, lá vou eu de nome novo, tudo trocado de lugar. achei o máximo!
tenho dois passaportes, duas carteiras de identidade, pelo menos três nomes diferentes, N formas de dizê-los e combiná-los. além de duas nacionalidades, e o fato de não residir em nenhum dos dois países de cidadania.
um grande marco pra mim foi fazer quarenta anos. e dar uma verdadeira guinada de 180° na minha vida. muita coisa que antes eu me incomodava: fudeu! tem muitas coisas no mundo e na vida muito mais importantes e de muito mais peso e importância que problemas simplórios como vergonha do nome, eu pelo menos não me chamo ‘Bucetildes’ ou sei lá como eram os casos engraçados com nomes assim que eu sempre ouvia de minha avó (de nome Itália, muito conhecida por Dona Italinha, uma grande figura!!!!). sou quem eu sou. gosto de ser chamado de Miro Paternostro, por um lado porque adoro este sobrenome, acho mesmo luxuoso. por outro porque eu mesmo o pude escolher. as vezes fico sonhando com a possibilidade de ter apenas esta uma identidade, este único nome escritos em todos os passaportes e carteiras. mas já pensou na burocracia e a trabalheira dos infernos de mudar a papelada toda em três países diferentes??? prefiro deixar come está mesmo. que assim seja!

fui!
beijús.

3 comentários:
eu quero escrever e não consigo. seu blog hoje é de uma contundência e profundidade que me deixam... nem sei como me deixam! neste mundo de tanta gente alela e mesquinha ser tão próxima, quase mãe de um homem digno e forte como você, eu fico analfabeta e boba porém orgulhosa
beijos de sua primãe maria que também é paternostro e também não o traz no registro, e é guimarães e é sampaio e agora vai no próprio blog tentar traduzir um pouco disto
Ontem fiquei passeando pelo seu blog e o de Maria (aí de cima). Vc ñ postou cedo, então fui dormir sem ler seu diário. Sentí falta. Bjs
Walmiro, Mirinho, Birinho, o nome realmente não importa, o que fica marcado é a personalidade.De vez quando procuro na internet notícias de velhos amigos.Hoje foi seu dia, e fiquei satisfeito em saber notícias suas.Guardo você na memória dos grandes amgios.Um forte abraço e muito sucesso.
Beto (SOPHIA COSTA PINTO).
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