

ontem foi a noite mais longa do ano. o verão entrou em cartaz oficialmente. 21 de junho.
o pragmatismo alemão, sempre se lembra deste evento, precavendo que a partir de então as noites começarão a encurtar. mesmo que seja um minuto por noite. mas esta necessidade de alerta caracteriza bem a forma de pensar e de agir dos alemães. tudo e qualquer coisa, tem um outro lado, um outro aspecto a ser medido, discutido, apreciado, execrado, nada se engole aqui de graça. aqui tudo se pesa, tudo se pensa, tudo se mastiga ad infinituum. berlin no verão é uma eterna festa. neste final de semana foram muitas. ‘fête de la musique’ in Kreuzberg, Neukölln e Friedrichshain (tres bairros em Berlin), 48 studen Neukölln (um festival de arte local do bairro), Motzstrassenfest (festa da rua Motz, reduto gay de classe média alta no bairro de Schöneberg). sem falar da febre futebolística que avassala a cidade. com a Turquia se classificando depois de jogos já quase perdidos, mudando o placar pouco antes do apito final. eu não gostava de futebol mais passei a gostar depois de velho, aliás comecei a gostar de muitas coisas que eu não gostava depois de velho – mas isso é um assunto pra outra vez. todos os bares com telões de tv, lotado de gente de todas as nacionalidades assistindo aos jogos. berlin é uma festa. parques, ruas, bares, clubes, beira do rio, beira de lago, esquinas tantas. em qualquer lugar, as pesoas se encontram e festejam assim o verão. a luz e o calor. novos, velhos, miúdos, graúdos, gordos, magros, pobres, ricos, cores e nomes em coloridíssima diversidade. o verão trás uma áurea de democracia social consigo. além disso Berlin é uma cidade de proletários e na guerra fria abrigou uma cidade dentro da outra, fazendo com que uma grande avalanche de eventos políticos e culturais acontecessem aqui. e hoje em dia atrái uma renca enorme de gente de tudo que é lado do mundo. aqui é fácil e barato de se viver. freaks, hippies, punks, gente de esquerda, a esquerda da esquerda, artistas de todas as espécies, enfim gente de todos os cantos do mundo terminam parando por aqui. como é o final de semana da ‘fête de la musique’ nestes tres bairros já citados, inúmeros palcos armados e muitos outros improvisados, música por todos os lados e pra todos os gostos. sentado na frente de um bar com amigos, ouvindo a um concerto, via uma quantidade enorme de gente de todas as idades, cores e rótulos passando. ou apenas pegar uma cerveja de 1 euro no quiosque mais próximo se sentar num parque e jogar conversa fora ao som de uma banda que apenas começou a se formar, alí do seu lado e observar a diversidade de gente passando passando. mais tarde e especialmente aos domingos, as festas de improviso nos parques. DJs trazem sua parafernália e um bando de gente se junta pra dançar. sem hora e/ou dia previsto para terminar. quem ouve as lendas do que era esta cidade nos anos 20 do século passado, pode mesmo reviver tudo isso ao vivo e a cores. tudo com esta estética, idéias e conceitos dos anos 2000. Berlin se hoje fosse um filme, seria uma mistura de ‘cabaret’ com ‘hair’, uma pitada de ‘laranja mecânica’ muito ‘velvet goldmine’ tudo isso sob roteiro de Fassbinder e direção de David Lynch (ainda não etsou bem seguro com a escolha do diretor, talvez o mais adequado fosse mesmo Stanley Kubrik, definitivamente !!!) não consigo me ver, morando em outra cidade, pelo menos no momento. como depois de tantos anos vivendo na Alemanha e 6 anos de Berlin, impossível não me deixar contaminar pelo pragmatismo. mas só um pouquinho, nada combina tão pouco comigo quanto iser pragmático. mas o que eu queria dizer é que nem tudo é um mar de rosas sempre. quando o outono chega e os dias realmente ficaram mais curtos. o bom humor e o otimismo deixam a cidade de lado. abandonados, muitos vão hibernar em outros hemisférios, fazendo da vida um eterno verão, outros hibernam é por aqui mesmo, vestindo-se em longos mantos de mau humor. ou simplesmente empurrando o mundo com a barriga, outros fazem da noite dia, de uma forma ou de outra o clima é em todos os sentidos outro! pessoalmente eu gosto ter 4 estações de ano. mesmo que no momento atual não tão bem definidas como antes, mesmo assim! (um clichê me persegue em se sabendo de mim emigrando do Brasil, alemães sempre me perguntam se o clima do Brasil não me faz falta. não! obrigado, calor e humidade. duas poucas sensações: sêco ou molhado) berlinenses são bem conhecidos pelo seu temperamento, este muito sêco, muitas vezes duro, mas por outro lado de uma sinceridade assustadora. nada como um bom esporro em alemão, quem já experenciou sabe o impacto e a força que ele emana. e basta você encarar alguém no metro, mais do que 10 segundos para a inevitável pergunta: que é que você quer comigo? se der bobeira, sai até uma porrada! no inverno, as pessoas se escondem como ratos, mas basta fazer um dia de sol, nem mesmo importando o que o termômetro ta dizendo. todos saem dos seus buracos, atrás de um pouco de luz pra alimentar os hormônios. tudo fica diferente. a cidade muda de cara. as pessoas mudam de cara. e o bom da estória pragmática é saber que no dia 21 de dezembro, todos vão comentar, que esta é a noite mais curta do ano e que a partir de amanhã os dias serão de novo mais longos.
fotos. minhas, feitas com a HOLGA.
Oranienstraßenfest. 2004

2 comentários:
Senti Berlin colorida e alegre. Senti vontade de passear nos parques, ouvir música, dançar.
Você escreve muitcho bem meu prifilho.
Beijos de sua primãe
Gostei tanto do que vc narrou sobre Berlin. Me deu vontade de estar aí. Se fosse descrever Salvador agora, no inverno e em pleno São João lhe diria q a cidade está vazia e NÃO faz frio. Bjs Maria Paternostro, prima da outra aí de cima.
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